domingo, 19 de setembro de 2010

Futurismo

Onde é que foram parar
os seres pensantes?

Estão encarcerados
em uma penitenciária dantesca
Foram flagrados pelo Grande Irmão
Napoleão os algemou
São sete celas e noventa e cinco chaves
guardadas no bolso de Tio Sam

Foram loucos
quebraram a lei do silêncio
ignoraram o toque de recolher da fábrica de acéfalos
fugiram do padrão de Warhol
fizeram algumas sinapses
desataram as amarras
Mas a Gestapo pegou-os todos

Foram poucos
escolhidos para enxergar entre os cegos monocromáticos
Mas estão agora aprisionados
sob os cuidados da KGB
O mundo volta a ser cinza branco negro
pois restaram somente cretinos
enlatados como Campbell Soup

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Felicidade

Chega de repente
de repente
se esvai
esvai
vai
ai
i
.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nostalgia



n/a: Arrumando algumas coisas antigas aqui em casa, encontrei meu caderno de redação da 6ª série, quando eu tinha 11 anos. Eu tinha o costume de colocar versinhos e desenhos na primeira página dos cadernos, mas esse foi o único que guardei, por ser de redação.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Versos inúteis

A qualidade do artista não é fazer arte.
A arte é inútil
É para aqueles que não têm preocupação
Para os que querem esquecer

A arte é dos gênios?
É daqueles que esquecem de si,
que veem o mundo

A arte não serve para nada
Antes servisse, e seria perfeita
Mas se fosse perfeita perderia sua nobreza
(sua graça é ser supérflua)
Se fosse útil, não seria dos artistas, pois
Artista é quem sente e
Sentir é luxo dado somente aos que ignoram os ponteiros
do relógio, do carro, do termômetro, da fábrica, do hospital,
da consciência

A qualidade do artista é, então, encarar o inútil. É ter coragem para quebrar o relógio
desligar a televisão,
voltar-se para o que é belo
E só então, fazer da beleza cor, palavra e colcheia
Torná-la tátil
visível
audível
inteligível
Mostrar aos (pre)ocupados
faces da vida
nunca dantes vistas

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Procura-se: algo

Ela voltou. Ela, a vontade de escrever. Dessa vez, porém, não é feroz. Ela fica a me cutucar durante o dia, com finas agulhas que ora espetam minha mente, ora furam meu coração. Paulatinamente, em pequenas doses de agonia, ela repete baixo em meus ouvidos "Ainda há muito para se falar".

Concordo com ela. Um rápido olhar pelo mundo deixa claro que ainda existem muitos problemas a serem resolvidos, muitas questões a serem discutidas. Ainda existem muitas musas, muita injustiça, muita dor e muita beleza que podem nos inspirar, pobres escritores, poetas, músicos, pintores, fotógrafos... Nós, que temos belos e assustadores pensamentos, e usamos a arte como expressão do desabafo.

Contudo, o problema agora é comigo. Tenho minha velha amiga Vontade, e a inspiração está aí para todos. Quero falar do mundo, das dores da vida, da juventude e da velhice. Mas não encontro as palavras certas, não consigo organizá-las em frases, tampouco em parágrafos. Escrevo e reescrevo, e o melhor resultado não passa de uma reprodução do que acontece em minha mente: um turvo turbilhão.

Eu mesma não entendo o que se passa na minha cabeça. Por isso, acho que só poderei expressar o que sinto quando a nuvem negra de palavras, imagens e versos - aquela que vejo quando fecho os olhos - se organizar na minha mente. Preciso encontrar as conjunções certas.

Já que, de forma agonizante, não consigo me expressar, deixo aqui uma parte da nuvem. Uma parte que ironicamente, chamei de inspiração.

E repito as palavras de Drummond: O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Procura da poesia - Carlos Drummond de Andrade

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Resíduo - Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.