sexta-feira, 23 de abril de 2010

Homo sapiens imoralis

As tragédias que acometeram o mundo nos últimos meses e, principalmente, suas conseqüências, me fizeram refletir sobre a situação da sociedade. Condições extremas como terremotos e enchentes fazem transparecer a irracionalidade do bicho homem e o avanço tecnológico e cultural se mostra insignificante quando comparado ao instinto de sobrevivência. Somos rebaixados a Homo sapiens, e nada além disso.
O que supostamente nos diferencia das outras espécies e nos coloca à frente da evolução, ao mesmo tempo nos inferioriza. A essência irracional humana é agravada pela racionalidade, que nos dá inveja, ambição e malícia. Em certas situações, temos menos moral que qualquer outro ser vivo. Contudo, não é necessário um desastre natural ou uma epidemia de cegueira branca para observar nosso lado primitivo. No cotidiano, os animais estão mascarados, mas sutilmente – ou nem tanto – se manifestam.
Acontece que estamos nos acostumando à barbárie. Não nos comovemos quando Bonner fala sobre um roubo envolvendo decapitação, um pai que molesta as filhas, a criação de um clone ou um homem-bomba que se suicida em nome de Deus. Fica difícil determinar o que é pior: revelar o animal em nossa essência, roubando e matando para sobreviver, ou tratar a quase casual falta de ética com naturalidade.
O que dizem sobre a limitação do cérebro humano a 30% de sua capacidade parece fazer sentido. Aparentemente, para que houvesse progresso da ciência, foi necessário degradar outra parte da mente – aquela que diz respeito à moral.

domingo, 18 de abril de 2010

O que pensas e sentes, isso ainda não é palavra

Há dias, talvez meses, que procuro inspiração para escrever. A vontade de colocar tudo em palavras está há muito inquieta. Ela sempre esteve comigo, adormecida, como está dentro de todos.

Em alguns é feroz e constante. A outros não incomoda e nem mesmo demonstra sua presença. Alguns a têm muito viva, mas não sabem como expressá-la. Em mim, depois de hibernar calmamente por um longo tempo, ela acordou.

Desde então espero o momento e o assunto ideais para escrever. Há tanto para se falar: as eleições, a chuva em Niterói, terremotos mundo afora, o futebol! Nada me agradava. Nem mesmo os temas do cotidiano, o vestibular, a juventude, a música. Ela, a vontade, fazia cara feia para todas as minhas ideias.

Decidi então abrir o jornal. Hoje e agora, pensei. É o momento certo para que ela dê o seu primeiro grito. Porém, aborrecida e mal-humorada como sempre, mais uma vez rejeitou as opções oferecidas. Nada de falar sobre a polêmica usina do Xingu, dos empresários decapitados ou da recente declaração do Papa. Quase desisti, pensando que nunca conseguiria agradá-la.

Foi então que ela deu a ideia. Sua única sugestão foi também minha preferida. Ela me disse, sorrindo irônica e sádica da minha agonia:

- Escreva sobre mim.