sábado, 1 de maio de 2010

O homem que colecionava contatos

Se Brás Cubas escreveu um romance quando já finado estava, eu agora escrevo um conto, quando quase finado estou. Preciso de algo para ocupar o breve espaço entre a vida e a morte, e decidi que esse algo seria escrever.

Trabalhei boa parte da minha vida em uma editora, mas nem por isso tenho muito gosto por livros. É verdade que leio às vezes sim, mas o português nunca foi grande chegado meu. Devo então avisar-lhe que minha prosa não passa de uma conversa cotidiana, não tem eiras nem beiras. Ao leitor (não espero que sejam muitos, por isso não uso o plural), digo que esta é a história de um episódio em que eu contava uma outra história a um amigo que há muito não encontrava. Eu não sabia como contar uma história só, a principal, pois não sou muito bom com as palavras. Essa foi a maneira mais fácil que encontrei. Pois então, se não gosta de contação de histórias, peço que não leia esta aqui, pois será duplamente cansativa para você.

Aconteceu que eu bebia cerveja em um boteco perto de minha casa. Eu já não tinha muitos afazeres, não trabalhava e muito menos estudava. Não estava afogando mágoas nem proseando com amigos. Somente bebia minha cerveja, esperando o tempo passar. Eis que me aparece o José, um velho conhecido dos tempos em que eu ainda jogava futebol aos domingos.
- Rocha! Ah, meu caro, quanto tempo! Como é que fomos perder o contato?! - Ele me disse animado logo que entrou no bar.
- José! Prefiro nem contar os anos desde a última vez que nos encontramos! Sente-se, vamos colocar a conversa em dia. O que anda fazendo da vida?
- Continuo professor, apesar de ter pensado em me aposentar... As crianças de hoje já não são as mesmas de antigamente. E você, continua trabalhando com aquele senhor?
- O Alves? Deus o tenha. Seu Alves passou dessa pra uma melhor.
- Fala sério?
- Pensa que eu brincaria com coisa tão triste? Já fazem quinze anos que tudo aconteceu.
- Do que foi que o velho morreu?
- A história é longa, José. Vai nos custar algumas cervejas. Quer ouvir?
- Quero, é claro. Aquele sujeito sempre me intrigou. Era um tanto peculiar.
- Garçom! Traga mais duas, por gentileza.

Pois então, o seu Humberto Alves era compadre de minha senhora. Quando eu era criança, ele vivia em nossa casa a visitar minha mãe. Até mesmo me apadrinhou depois que meu padrinho oficial morreu tuberculoso. Ele gostava de me levar às festas e bailes que era convidado a ir. Dizia que eu deveria conhecer e ser conhecido desde pequeno. Chegando nos lugares, ficávamos perambulando pelo salão, cumprimentando os conhecidos e conhecendo os desconhecidos.
"O prazer é todo meu!" Ah! Quantas vezes repeti esta frase às mais diversas pessoas! Madames, funcionários públicos, mestres, músicos, desocupados... Só os céus sabem a conta das vezes que eu disse ter prazer, ou realmente o tive, em conhecer essas pessoas.

- E ainda guarda muitos desses contatos? - José perguntou bebendo um gole de sua cerveja.
- Muito poucos, muito poucos. Seu Alves se esforçou tanto a me ensinar essa sua arte, mas eu não tenho o dom - ou o vício, ainda não entendi o que era - que aquele homem tinha.

Acontecia que depois de termos tocado o chapéu para todos os convidados e beijado as mãos de todas as convidadas, meu padrinho selecionava as pessoas mais interessantes. Normalmente eram duas ou três, e passávamos a noite a conversar com essas escolhidas. Com exceção de uma vez que o Juscelino estava no baile.

- O presidente?
- Sim, o próprio. Nesse dia seu Alves ficou o tempo inteiro a cortejar o presidente com aumentativos.

Assim foi por muito tempo, até que o velho conseguiu um cargo alto numa editora importante - através de algum contato seu. Foi aí que comecei a trabalhar para ele. Eu já tinha uns vinte e dois anos, e Alves me queria seu secretário. Eu organizava sua agenda, despachava correspondência, enfim, fazia aquilo que ele não perderia tempo fazendo. Depois de juntar algum dinheiro, ele comprou uma casa.

- Aquela na Juiz de Fora?
- Sim, essa casa. Como havia muita coisa que seu Alves não queria fazer por si mesmo, e eu já era responsável por ajeitar toda sua rotina, ele pediu que fosse morar com ele. A partir de então, comecei a organizar as festas do próprio Alves, que aconteciam nessa mesma casa. O lugar é grande e comportava muita gente. Mas meu padrinho gostava de convidar não mais que uma dúzia de contatos, para que pudesse bajular todos de forma justa.
- Foi então que surgiu aquela parede?
- Era aqui que eu pretendia chegar. Em ocasião do aniversário do dono da editora, seu Alves decidiu festejar em nossa casa. Acontece que o aniversariante (não me recordo seu nome) tinha tantas ou mais amizades que o velho Alves. E as suas eram ainda mais prestigiosas que as de meu padrinho. Eis que apareceu para a festa o prefeito, e o Alves ficou estupefato, pense bem. Essas drogas de hoje em dia, nenhuma poderia causar tal efeito naquele homem. Depois de transbordar em adjetivos grandiosos - alguns desconhecidos mesmo pelo Aurélio - seu Alves pediu ao prefeito que assinasse aquela parede da sala. Ele disse fervoroso:

- Assim terei a prova para qualquer um que duvidar de que o prefeito já esteve em minha casa! E melhor ainda, sempre que eu entrar em casa, vou me deparar com a lembrança deste dia tão honroso!

Assim começou a tradição daquela parede. Sempre que havia uma personalidade ilustre em sua casa, o Alves pedia-lhe que assinasse a parede, repetindo as mesmas palavras ditas ao prefeito - com alguns floreios a mais, porque tinha mais tempo para elaborar a frase. Foi só então que comecei a observar melhor esse vício do Alves. Era comum vê-lo mirar as assinaturas. Os olhos brilhavam e certas vezes o peito se estufava. Não existia outra coisa no mundo da qual se orgulhasse mais: era a prova concreta do maior mérito que carregava consigo.

- Vocês aceitam mais duas? - o garçom nos interrompeu.
- Sim, por favor. Prossiga, Rocha.
- Ele nunca se preocupou com o que aquelas pessoas sentiam por ele. Acho que nem mesmo se importava com o que ele próprio sentia por elas. O Alves não gostava nem desgostava dos seus contatos. Ele simplesmente os tinha, e disso se orgulhava. Artistas, políticos e militares... Tinha se feito notar por tantos! Não lhe faltava nada na vida: só precisava de seus contatos.

Uso essa expressão "contatos" pois era assim que o velho os chamava. "Com contatos se vai longe, filho", era o que vivia me dizendo. Como falei, ele nunca pensou em amigos. Queria somente ser conhecido e reconhecido. É sim, tinha sede de reconhecimento. Todos temos essa necessidade, mas o Alves vivia por ela, e é isso que o torna intrigante.

- Eu já tinha percebido que o Alves gostava de amizades, mas não sabia que era grave assim. - José falou olhando apreensivo para seu copo.
- Por que "grave", José?
- Ora, o homem era doente pelos tais contatos.
- E não somos todos, camarada? Passamos a vida a adular pessoas que não gostamos, a nos preocupar com gente que mal sabe da nossa existência, a confraternizar com falsos amigos. Não temos todos um pouco do Alves? A diferença é que o velho não tinha vergonha disso. Pelo contrário, sua força motriz eram os contatos.
- Ah, Rocha. Me arrependo de ter insistido que contasse essa história. Hoje meu travesseiro se encherá de pensamentos escuros e pesados.
- Foi isso que me aconteceu quinze anos atrás. A história termina agora. Quando o Alves já estava aposentado e muito idoso, fiquei a pageá-lo. Ele adoeceu de alzheimer. Ao vê-lo reviver tantas festas, tantos nomes e rostos, acho que era eu quem sofria mais, como acontecerá com você se decidir pensar em tudo que lhe contei hoje. A doença foi lhe roubando seu único tesouro: a lembrança das pessoas que conheceu.

Poucos o visitaram enquanto ele padecia. E o Alves morreu, sem amigos e sem os contatos que a memória doente apagou. Durante seu último suspiro, ele olhava a parede repleta de assinaturas. Dessa vez, sem brilho algum nos olhos.